segunda-feira, 25 de maio de 2009

O que Socrates Diria a Woody Allen p. 288

O demasiado novo é tão desagradável quanto o excesso redundante. O que mais nos agrada são aqueles estímulos em que uma mescla apropriada de redundância e novidade. A novidade supõe um desafio a nossa capacidade de avaliação; e o desfrute estético é máximo quando, em primeiro lugar, a compreençao da mensagem significa um desafio intenso a essa capacidade; e quando, em segundo lugar, esta sai triunfante e consegue disso, eliminar o excesso de novidade subjetiva que a principio tinha para nos.

(J.A.R.)

sábado, 2 de maio de 2009

Trópico de Capricórnio p. 227

Beethoven demarcou o novo território - sabe-se de sua presença quando ele irrompe, quando ele invade o próprio núcleo de sua quietude. é um reino de novas vibrações - para nós apenas uma vaporosa nebulosa, pois ainda precisamos ir alem de nosso conceito de sofrimento. ainda precisamos ingerir esse mundo nebuloso, seu trabalho, sua orientação.


(...)


Musica é fogo planetário, um irredutível auto-suficiente; é a escrita dos deuses na lousa, o abracadabra que cultos e ignorantes igualmente perdem porque o eixo foi desencaixado. Vejam as entranhas, o iconsolável e inelutável! Nada está determinado, assentado ou resolvido.


(HM)

Trópico de Capricórnio p. 208

Alguma coisa me matara, e no entanto eu estava vivo.

(...)

O homem que renasce é sempre o mesmo, mais ele mesmo a cada renascimento. esta soltando a velha pele a cada vez, e com ela seus pecados. O homem a quem Deus ama é realmente um homem de vida justa. O homem a quem Deus ama é a cebola com milhões de peles. Soltar a primeira camada é indescritivelmente doloroso; a camada seguinte é menos dolorosa , a próxima menos ainda, até que por fim a dor torna-se prazerosa, cada vez mais, uma delicia, um êxtase. E depois não mais nem prazer nem dor, apenas a escuridão que cede diante da luz. E quando a escuridão se vai, a ferida sai de seu esconderijo: a ferida que é o homem, o amor do homem, banha-se em luz. Recupera-se a identidade perdida. O homem avança de sua ferida aberta, da sepultura que carregou consigo por tanto tempo.


(HM)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Trópico de Capricórnio p. 252

Sabe o que me deixa louco? é olhar para o meu velho. Desde que se aposentou, fica sentado diante da lareira o dia todo, entediado. Fica ali feito um gorila alquebrado, foi pra isso que se escravizou a vida toda. Ora, merda, se eu achasse que isso ia acontecer comigo estourava os miolos hoje. Olhe em volta... veja as pessoas que a gente conhece... conhece alguma que valha a pena? Para que essa agitaçao toda, eu gostaria de saber? Precisamos viver, dizem. Por que? Era o que eu gostaria de saber.

(...)

Quando estourou a guerra e os vi partirem para as trincheiras, disse a mim mesmo bom, talvez voltem com um pouco de juizo! Muitos nem voltaram, claro.

(HM)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Trópico de Capricórnio p. 207

Jamais encontrei um homem assim! Jamais encontrei um homem generoso como eu, misericordioso, tolerante, descuidado, irresponsável, puro de coração. Perdoo-me por todo crime que cometi. Faço isso em nome da humanidade. Sei o que significa ser humano, a fraqueza e força da condição. Sofro com esse conhecimento e também me regozijo. Se tivesse uma chance de ser Deus, eu a rejeitaria. Se tivesse a chance de ser uma estrela, eu a rejeitaria. A mais maravilhosa oportunidade que a vida oferece é ser humano. Isso abarca todo o universo e inclui o conhecimento da morte, o qual nem mesmo Deus desfruta.

(HM)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Trópico de Capricórnio p. 108

"Mais uma vez a noite, a incalculavelmente estéril, fria e mecânica noite de Nova York, em que não paz, refugio ou intimidade. A imensa e congelada solidão da multidão de um milhão de pés, o fogo frio e supérfluo da exibição eletrica, a esmagadora falta de sentido da perfeição da fêmea que, pela perfeição, cruzou a fronteira do sexo e passou para o sinal de menos, para o vermelho, como a eletricidade, como a energia neutra dos machos, como planetas sem aspecto, como programas de paz, como amor transmitido pelo radio. Ter dinheiro no bolso no meio da energia branca, neutra, andar ao leu e infecundo por entre o brilho das ruas calcinadas, pensar em voz alta em total solidão à beira da loucura, pertencer a uma cidade, uma grande cidade, pertencer àquele ultimo momento na maior cidade do mundo e não se sentir parte dela, é tornarmo-nos nos mesmos uma cidade, um mundo de pedra morta, de luz desperdiçada, de movimento ininteligível, de imponderáveis e incalculáveis, da secreta perfeição de tudo que é menos. Andar com dinheiro pela multidão noturna, protegido pelo dinheiro, embalado pelo dinheiro, embotado pelo dinheiro, a própria multidão dinheiro, a respiração dinheiro, nenhum unico objeto em parte alguma que não seja dinheiro, dinheiro, dinheiro em toda a parte e ainda assim não o bastante, e depois nenhum dinheiro, ou pouco dinheiro, ou menos dinheiro, ou mais dinheiro, porém dinheiro, sempre dinheiro, e se a gente tem dinheiro ou não tem dinheiro, é o dinheiro que conta e o dinheiro que faz dinheiro, mas o que leva o dinheiro a fazer dinheiro?"

(HM)